SIBO, IMO e ISO: três tipos diferentes de supercrescimento intestinal
Entenda como bactérias e arqueias produtoras de diferentes gases estão relacionadas a perfis distintos de supercrescimento intestinal e manifestações clínicas.

Por Bianca Ribeiro Pizzato Fantin
Bióloga, Mestrado em Genética e Product Owner na BiomeHub.

O SIBO (Small Intestinal Bacterial Overgrowth ou Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado), quadro caracterizado por estufamento (bloating), dores abdominais e alterações no hábito intestinal, foi durante os últimos anos a única condição descrita de supercrescimento no trato gastrointestinal.
Porém, com o avanço das ferramentas de diagnóstico, hoje sabemos que os sintomas associados ao supercrescimento no trato gastrointestinal podem ser provocados por microrganismos diferentes, e os gases por eles produzidos desencadeiam impactos diferentes na mucosa e na motilidade intestinal.
Hoje, a literatura científica reconhece três perfis microbiológicos de supercrescimento:
SIBO: predomínio de bactérias produtoras de hidrogênio no intestino delgado; classicamente associado a diarreia.
IMO (Intestinal Methanogen Overgrowth ou Supercrescimento Metanogênico Intestinal): supercrescimento de arqueias, principalmente Methanobrevibacter smithii, que produzem metano; reduzindo a motilidade intestinal e associado a constipação.
ISO (Intestinal Sulfide Overproduction ou Superprodução de Sulfeto Intestinal): supercrescimento de bactérias produtoras de sulfeto de hidrogênio; associado a diarreia mais intensa, dor e hipersensibilidade visceral.


Por que a identificação precisa do Supercrescimento é importante?
Por que a identificação precisa do Supercrescimento é importante?
Como essas três condições envolvem microrganismos e impactos clínicos totalmente diferentes, a prescrição de um tratamento genérico costuma levar a frustrações e recidivas dos sintomas.
Os antimicrobianos direcionados para as bactérias da SIBO não têm a mesma eficácia sobre as arqueias do IMO ou sobre as populações sulfidogênicas da ISO.
A dieta Low FODMAP (focada na restrição de carboidratos fermentáveis) ajuda bastante na SIBO e no IMO. Contudo, no quadro de ISO, é preciso olhar também para a oferta de enxofre na alimentação (como excesso de proteínas ricas em cisteína/metionina, gordura saturada e sulfitos).
Pacientes com IMO precisam de suporte focado na motilidade e no trânsito intestinal, enquanto quem apresenta ISO precisa de estratégias voltadas para a proteção da mucosa e redução do estresse oxidativo nas células.
Compreender exatamente qual o tipo de disbiose é a chave para uma conduta terapêutica precisa e individualizada.
Nesse contexto, as Diretrizes da ACG e AGA definem que para o diagnóstico de SIBO é recomendada cultura de aspirado do intestino delgado com ≥10³ UFC/mL ou teste respiratório com aumento de H2. Porém, vale destacar que a própria ACG reconhece que os critérios do teste respiratório têm sensibilidade e especificidade limitadas (lactulose: sensibilidade ~42%, especificidade ~71%; glicose: sensibilidade ~54%, especificidade ~83%).
No Brasil, o teste respiratório capaz de dosar o H2S ainda não está amplamente disponível, portanto os testes oferecidos pela grande maioria dos laboratórios medem exclusivamente o Hidrogênio e o Metano. O uso de testes respiratórios no diagnóstico dos Supercrescimentos Intestinais possui algumas limitações:
Glicose vs. Lactulose: a glicose é absorvida rapidamente no duodeno proximal e pode não detectar alterações no final do intestino, gerando um falso negativo. A lactulose percorre todo o trato, mas se o trânsito for rápido, a fermentação do cólon pode ser confundida com supercrescimento gerando um falso positivo.
Os exames que medem apenas hidrogênio podem resultar em falso negativo para SIBO em quem tem IMO e ISO, pois o hidrogênio é consumido para produção de metano e sulfeto.
Antibióticos, laxantes, dieta inadequada pré-exame, tabagismo e até bactérias da boca alteram o resultado do teste respiratório.
Diante da limitação do teste respiratório, utilizar o sequenciamento de DNA fecal por metagenômica em conjunto torna-se uma estratégia importante de avaliação clínica.
O teste de sequenciamento permite identificar com precisão a abundância relativa dos gêneros e espécies sulfidogênicas, como Desulfovibrio, Bilophila wadsworthia, Proteus mirabilis e Enterobacter relacionadas ao ISO. Além disso, o teste de sequenciamento permite identificar com precisão a abundância relativa das arqueias metanogênicas, como Methanobrevibacter smithii, relacionada ao IMO.
O mapeamento genético do microbioma feito através do sequenciamento de DNA das fezes, pelo exame PRObiome Plus, permite ao profissional de saúde ir além do alívio sintomático e atuar diretamente na causa da disbiose intestinal.
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