Bactérias sulfidogênicas: o que são e qual sua relação com a microbiota intestinal?
Como esses microrganismos produzem sulfeto de hidrogênio (H₂S) e quais são os efeitos desse composto na saúde intestinal.

Por Bianca Ribeiro Pizzato Fantin
Bióloga, Mestrado em Genética e Product Owner na BiomeHub.
Neste postblog será abordado:

Enquanto a maior parte dos microrganismos que compõe o nosso microbioma intestinal é reconhecida pela fermentação de carboidratos complexos e produção de ácidos graxos de cadeia curta (como o butirato), existe um grupo de grande relevância clínica cujo metabolismo é especializado na transformação de compostos de enxofre: as bactérias sulfidogênicas.
Mas o que exatamente elas fazem e por que são importantes para a nossa saúde? Vamos explorar essas questões neste post.
As bactérias sulfidogênicas habitam predominantemente o cólon, mas também podem colonizar o intestino delgado, e produzem o gás sulfeto de hidrogênio (H2S). Este gás atua de forma benéfica na circulação e no tônus intestinal, porém a produção em excesso desencadeia a degradação da camada protetora de muco, induzindo inflamação e alterações no hábito intestinal.
Como funciona a produção de sulfeto de hidrogênio pela microbiota intestinal?
Bactérias Redutoras de Sulfato (SRB) e Sulfito: Em seu processo de respiração anaeróbia, utilizam compostos de enxofre, além de compostos derivados da bile (como a taurina) e de vegetais. Esse processo depende da ação de enzimas, como a sulfito redutase dissimilatória (DsrAB) e resulta na liberação de H2S no lúmen intestinal. Os principais representantes desse grupo são as espécies do gênero Desulfovibrio e a Bilophila wadsworthia.
Bactérias fermentadoras de aminoácidos sulfurados: Em seu processo fermentativo para obtenção de energia, utilizam o enxofre proveniente da digestão de proteínas, degradando aminoácidos específicos, como a L-cisteína e a L-metionina, através de enzimas chamadas dessulfidrases. Esse processo resulta na liberação de H2S, piruvato e amônia no lúmen intestinal. Os principais representantes desse grupo são enterobactérias como Proteus mirabilis e as espécies do gênero Enterobacter.
Como a dieta impacta a produção do gás sulfeto de hidrogênio na microbiota
A quantidade de H2S no intestino não depende apenas da presença de bactérias sulfidogênicas, mas também do tipo de substrato que fornecemos através da alimentação. Diferentes componentes da dieta ativam rotas metabólicas distintas no microbioma:
Carnes vermelhas, processadas e ovos (degradação proteica de enxofre): aumentam a oferta de aminoácidos sulfurados L-cisteína, L-metionina e sulfitos inorgânicos, contribuindo diretamente para a via de degradação proteica de H2S. O ovo, por ser riquíssimo em cisteína e metionina (mesmo tendo zero FODMAP), é um dos principais gatilhos nessa via.
Gordura saturada de origem animal (a rota dos sais biliares): o consumo elevado de gordura saturada estimula a secreção hepática de sais biliares conjugados com taurina (taurocolato), fornecendo substrato que promove a expansão de Bilophila wadsworthia.
Crucíferas e folhosos - couve, brócolis e repolho (a rota da sulfoquinovose): folhosos e crucíferas contêm sulfoquinovose (SQ), um açúcar naturalmente rico em enxofre presente nas plantas. Bactérias comensais, como a Eubacterium rectale, fermentam a SQ e liberam um metabólito intermediário, o qual é então utilizado por bactérias sulfidogênicas.
Alho e cebola (a rota dos compostos organossulfurados): além das fibras, o alho e a cebola contêm compostos organossulfurados e polissulfetos, como a alicina. No ambiente intestinal, essas moléculas doadoras de enxofre fornecem matéria-prima direta para a síntese bacteriana de H2S.
Quais os sintomas da produção em excesso do gás sulfeto de hidrogênio?
O acúmulo de H2S compromete a integridade das células e altera o funcionamento da mucosa intestinal, refletindo-se em manifestações gastrointestinais e sistêmicas:
Alteração do padrão evacuatório: o gás afeta o tônus muscular e a secreção de fluidos, associando-se a fezes amolecidas ou aquosas, aumento na frequência das evacuações e urgência fecal. A proporção aumentada de bactérias sulfidogênicas têm associação com o subtipo diarreico da Síndrome do Intestino Irritável (SII-D).
Odor característico: gases e fezes com odor acentuado de compostos de enxofre (ovo podre).
Desconforto abdominal: sensação de estufamento (bloating), cólicas e dor abdominal por alteração da sensibilidade visceral.
Sintomas sistêmicos: o desequilíbrio da microbiota intestinal e comprometimento da barreira deixa a parede intestinal mais vulnerável e permeável a toxinas, podendo se manifestar como fadiga crônica, indisposição e lentificação cognitiva (brain fog).
ISO (Intestinal Sulfide Overproduction ou Intestinal Sulfate-Reducing Overgrowth): supercrescimento e hiperatividade das bactérias sulfidogênicas no intestino.
Embora a superprodução de H2S esteja associada a processos inflamatórios, é um erro considerar as bactérias sulfidogênicas ou o próprio gás como inimigos do intestino. Em concentrações baixas, o H2S desempenha funções vitais para a integridade do trato gastrointestinal, dentre elas:
Serve de combustível e energia para as células: em níveis adequados, as células da parede do intestino (colonócitos) utilizam o H2S e geram energia para o funcionamento do próprio tecido intestinal.
Garante o ambiente ideal para as bactérias benéficas: para processar o H2S, os colonócitos precisam consumir oxigênio. Esse consumo constante elimina o oxigênio do interior do intestino, criando um ambiente perfeito para que as bactérias benéficas que não toleram oxigênio, como as produtoras de butirato, consigam crescer.
Combate a inflamação e ajuda na cicatrização: o H2S atua como um antioxidante e sinalizador celular. Acelera a cicatrização de lesões na mucosa ao reduzir a liberação de substâncias inflamatórias e estimular a circulação de sangue no local.
Consome o gás hidrogênio: durante a digestão, outras bactérias produzem muito gás hidrogênio (H2), o qual é utilizado para produzir H2S, evitando o acúmulo excessivo desse gás no intestino.
A identificação de bactérias sulfidogênicas na microbiota intestinal permite direcionar estratégias terapêuticas e nutricionais específicas.
O mapeamento genético do microbioma feito através do sequenciamento de DNA das fezes, pelo exame PRObiome Plus, permite ao profissional de saúde ir além do alívio sintomático e atuar diretamente na causa da disbiose intestinal.
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