Por que algumas pessoas não melhoram o controle da glicemia com exercício?
- Michele Patrícia Rode
- há 3 dias
- 4 min de leitura
Entenda por que algumas pessoas não melhoram a resistência à insulina com exercício físico e como a microbiota intestinal influencia essa resposta metabólica.

Por Michele Rode
Farmacêutica, Doutora em Farmácia pela UFSC e Product Manager na BiomeHub.
Neste postblog será abordado:

O exercício físico é um dos pilares da prevenção e do tratamento de condições metabólicas como pré-diabetes, obesidade e diabetes tipo 2 (DM2). No entanto, na prática nem todas as pessoas apresentam melhora metabólica com o exercício, mesmo seguindo o mesmo protocolo de treino.
Essa é uma experiência comum e extremamente frustrante que não pode ser explicada apenas por adesão, intensidade do treino ou perda de peso.
Pesquisas têm revelado que essa variabilidade individual pode ser explicada, em grande parte, por diferenças na microbiota intestinal. Este post resume os principais achados dos estudos que ajudam a explicar por que o exercício nem sempre melhora o metabolismo.
Respondedores e não respondedores ao exercício: por que o exercício não funciona igual para todos?
Quando diferentes pessoas seguem exatamente o mesmo programa de treino, elas podem ser divididas em dois grupos, com base nos resultados metabólicos:
Respondedores: indivíduos que apresentaram uma adaptação metabólica, com redução significativa do HOMA-IR (Índice de Avaliação do Modelo Homeostático para Resistência à Insulina).
Não respondedores: indivíduos que não atingiram melhora metabólica analisada por HOMA-IR, mesmo com perda de peso semelhante e adesão ao mesmo protocolo de exercício.
O papel da microbiota intestinal na resposta metabólica ao exercício
Os estudos mostraram que a microbiota de respondedores e não respondedores difere com o exercício físico. Nos indivíduos que respondem bem ao exercício, a microbiota tem capacidade de realizar atividades metabólicas benéficas, como:
Produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), especialmente propionato e butirato;
Catabolismo de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs), associados à resistência à insulina quando elevados;
Produção de GABA, um metabólito envolvido na homeostase glicêmica;
Redução de bactérias associadas à inflamação.
Nos não respondedores, a capacidade funcional da microbiota é desfavorável:
Maior produção de metabólitos potencialmente tóxicos, como glutamato, indol e p-cresol;
Fermentação de aminoácidos associada a estresse oxidativo e inflamação;
Menor capacidade de produzir butirato;
Conversão prejudicada de glutamato em GABA.
Metabolismo de BCAAs e resistência à insulina
A microbiota intestinal regula a quantidade de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs, que incluem leucina, isoleucina e valina) através de um equilíbrio entre a sua produção e a quebra. Diversos microrganismos presentes no intestino, possuem vias metabólicas capazes de sintetizar ou modificar BCAAs a partir da fermentação de proteínas e peptídeos não digeridos que chegam ao cólon.
Em indivíduos respondedores ao exercício, observa-se um aumento na abundância de genes que participam da quebra dos BCAA, o que reduz sua concentração sistêmica. Em contraste, a microbiota de indivíduos que não respondem bem ao exercício apresenta uma capacidade aumentada de produção e a redução na quebra desses metabólitos, principalmente a leucina, levando ao acúmulo de BCAAs.
O excesso de BCAAs contribui de forma importante para a resistência à insulina, inflamação do tecido adiposo e risco futuro de DM2. Espécies como Prevotella copri e Bacteroides vulgatus aumentam a capacidade de produção de BCAAs, enquanto bactérias como Faecalibacterium prausnitzii contribuem para a quebra de BCAAs, reduzindo seus níveis circulantes.
Alterações na microbiota (disbiose) podem favorecer o acúmulo sistêmico de BCAAs que prejudicam a sinalização da insulina e podem explicar as diferenças individuais no controle da glicemia com exercícios físicos. As intervenções terapêuticas direcionadas a microbiota intestinal representam uma estratégia promissora para maximizar a eficácia do exercício na prevenção individualizada do diabetes.
Os estudos reforçam que o exercício físico, embora essencial, não atua de forma igual em todos os indivíduos. A composição e a funcionalidade da microbiota intestinal são fatores-chave para explicar a variabilidade na resposta metabólica ao exercício.
Nesse contexto, a avaliação da microbiota intestinal pode fornecer informações relevantes para compreender por que determinados pacientes não apresentam melhora na resistência à insulina, mesmo com boa adesão ao treino. Integrar dados de microbiota à prática clínica pode representar um passo importante para estratégias mais individualizadas e eficazes na prevenção e no manejo do diabetes tipo 2.
Como identificar as bactérias na microbiota intestinal?
A identificação de bactérias na microbiota intestinal para guiar estratégias terapêuticas mais assertivas pode ser feita através do sequenciamento de DNA das fezes, como o exame PRObiome Plus.
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Referências:
Human Gut Microbes Impact Host Serum Metabolome and Insulin Sensitivity. Nature. 2016. Pedersen HK, Gudmundsdottir V, Nielsen HB, et al.
Gut Microbiome Fermentation Determines the Efficacy of Exercise for Diabetes Prevention. Cell Metabolism. 2020. Liu Y, Wang Y, Ni Y, et al.
Exercise-Induced Modulation of Gut Microbiota in Individuals With Obesity and Type 2 Diabetes: A Systematic Review and Meta-Analysis. Frontiers in Microbiology. 2025. Lin W, Pu L, Qian X, et al.
Gut Microbiome-Adipose Crosstalk Modulates Soluble IL-6 Receptor Influencing Exercise Responsiveness in Glycemic Control and Insulin Sensitivity. Cell Metabolism. 2025. Wang Y, Wu J, Yao J, et al.
A Higher Bacterial Inward BCAA Transport Driven by Faecalibacterium Prausnitzii Is Associated With Lower Serum Levels of BCAA in Early Adolescents. Molecular Medicine. 2021. Moran-Ramos S, Macias-Kauffer L, López-Contreras BE, et al.



