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Como estruturar estudos em microbioma: delineamentos, vieses e boas práticas

  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 24 horas

Aprenda como estruturar estudos de microbioma com o delineamento ideal, evitar vieses e gerar resultados robustos em pesquisa clínica.



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Por Bianca Teixeira

Bióloga, Doutora em Ciências e Head de Projetos na BiomeHub.




Neste postblog será abordado:



Esquema para representar os tipos de estudos de pesqueisa clem microbioma

Introdução: por que o delineamento é crítico em estudos de microbioma

Em 1994, o estatístico Douglas Altman publicou um editorial no BMJ que abalou os fundamentos da academia ao denunciar o que chamou de “o escândalo da má pesquisa médica”. Altman argumentava que grande parte da literatura científica apresentava qualidade metodológica tão baixa que suas conclusões eram, na melhor das hipóteses, duvidosas e, na pior, potencialmente perigosas.


Três décadas depois, esse alerta ressoa com ainda mais urgência no campo do microbioma. A alta complexidade e a natureza multidimensional dos dados de sequenciamento exigem um rigor que vai além da bancada; exigem que o delineamento seja resgatado como a “virtude principal” do estudo. Como delineamento e análise de dados são indissociáveis, o desenho do estudo é o que garante que o resultado final represente a biologia, e não apenas ruído metodológico.


Diante dessa necessidade de rigor, exploramos a seguir os principais delineamentos em estudos de microbioma, os vieses mais relevantes e estratégias para mitigá-los.





Para estruturar um projeto de pesquisa clínica adequadamente, o primeiro passo é equilibrar a ambição da pergunta científica com a viabilidade prática, ou seja, os recursos disponíveis, o número de amostras e o tempo do projeto.

A formulação de uma boa pergunta clínica pode ser feita utilizando a estratégia PICO (Paciente/Problema, Intervenção, Controle e Desfecho), garantindo clareza e objetividade desde o início.




Tipos de estudos em microbioma: principais abordagens

De forma prática, os estudos com microbioma podem ser organizados em três grandes cenários, de acordo com o tipo de pergunta científica:


  1. Estudos de impacto de intervenção sobre o microbioma

  2. Estudos de associação entre microbioma e diagnóstico

  3. Estudos de impacto do microbioma sobre heterogeneidade de efeito de tratamento



  1. Estudos de impacto de intervenção sobre o microbioma

Se o objetivo é avaliar se uma dieta, medicamento ou probiótico altera o microbioma, o pesquisador está diante de um estudo de intervenção. Em geral, tratam-se de estudos experimentais, sendo os delineamentos mais utilizados o ensaio clínico randomizado (ECR) e o modelo antes e depois (pré-pós).


Ensaio clínico randomizado (ECR)

Considerado o padrão-ouro, o ECR distribui os participantes aleatoriamente entre grupos (por exemplo, intervenção e controle, ou placebo), reduzindo vieses e permitindo inferências mais robustas sobre causalidade.


A randomização tende a equilibrar, em média, fatores de confusão conhecidos e desconhecidos entre os grupos, especialmente em amostras adequadas, aumentando a confiabilidade dos resultados.


Estudo antes e depois


Trata-se de um delineamento de braço único, no qual cada participante é avaliado em dois momentos (antes e após a intervenção), atuando como seu próprio controle.


Embora seja útil para detectar mudanças ao longo do tempo e amplamente utilizado em estudos exploratórios, esse modelo é mais suscetível a fatores de confusão, o que limita a atribuição direta dos efeitos observados exclusivamente à intervenção.



  1. Estudos de associação entre microbioma e diagnóstico


Quando o objetivo é investigar se o microbioma pode prever ou diagnosticar uma condição (como o câncer, por exemplo), os delineamentos mais utilizados são observacionais, com destaque para o estudo transversal prospectivo e o estudo caso-controle.


Estudo transversal prospectivo


Nesse tipo de estudo, os participantes são recrutados prospectivamente e as amostras são coletadas de forma padronizada, permitindo a análise simultânea do microbioma e do status clínico em um único momento.


Esse delineamento é um dos mais recomendados para avaliação diagnóstica, pois reflete melhor o cenário clínico real: pacientes com suspeita da doença são incluídos e submetidos tanto ao teste de microbioma quanto a um padrão de referência.


Estudo caso-controle simples


Muito comum na literatura, esse delineamento parte da seleção de indivíduos com o diagnóstico de interesse (casos) e sem o diagnóstico (controles), comparando retrospectivamente seus perfis de microbioma.


No entanto, está sujeito ao viés de espectro, que ocorre quando a população estudada não representa adequadamente a diversidade de pacientes da prática clínica. Ao selecionar casos com doença bem estabelecida e controles excessivamente saudáveis, há uma tendência de superestimar a acurácia do teste.


Uma estratégia para mitigar esse viés é utilizar desenhos caso-controle aninhados em coortes previamente estabelecidas.




  1. Estudos de impacto do microbioma sobre heterogeneidade de efeito de tratamento

Nesse cenário, a pergunta de pesquisa é mais complexa: o tratamento funciona melhor em indivíduos com determinados perfis de microbioma?


Análise de subgrupos em ECR


O ECR com análise de subgrupos permite avaliar se diferentes perfis de microbioma (por exemplo, definidos no baseline) estão associados a respostas distintas ao tratamento, mantendo a robustez causal do delineamento.


Ensaios N-of-1


Nesse modelo, o participante atua como seu próprio controle, passando por ciclos repetidos de intervenção e controle (ou diferentes intervenções).


Esse delineamento é particularmente útil em microbioma devido à alta variabilidade interindividual, aumentando a sensibilidade para detectar respostas individuais ao tratamento.


Modelos preditivos e inferência causal


Abordagens baseadas em modelos preditivos e inferência causal, como a análise de interação entre tratamento e microbioma, têm ganhado destaque.


Quando combinadas com dados longitudinais, essas estratégias permitem identificar assinaturas microbianas associadas à variabilidade de resposta e avançar em direção à medicina personalizada.


Como escolher o delineamento ideal para seu estudo


A escolha do delineamento ideal envolve equilibrar o rigor científico com a viabilidade do projeto.


Se você ainda tem dúvidas sobre qual abordagem é mais adequada para a sua pergunta de pesquisa, nosso time pode apoiar na construção de um desenho robusto e alinhado aos seus objetivos.


Entre em contato conosco e saiba mais sobre os nossos serviços para pesquisa clínica.


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Referências:

ALTMAN, D. G. The scandal of poor medical research. BMJ, v. 308, n. 6924, p. 283-284, 1994.


BOSSUYT, P. M. et al. STARD 2015: an updated list of essential items for reporting diagnostic accuracy studies. BMJ, v. 351, h5527, 2015.


COLLINS, G. S. et al. Transparent reporting of a multivariable prediction model for individual prognosis or diagnosis (TRIPOD): the TRIPOD Statement. Annals of Internal Medicine, v. 162, n. 1, p. 55-63, 2015.


LILLIE, Elizabeth O. et al. The role of n-of-1 trials in personalized medicine. Personalized Medicine, v. 8, n. 1, p. 161–173, 2011.


MIRZAYI, C. et al. Reporting guidelines for human microbiome research: the STORMS checklist. Nature Medicine, v. 27, p. 1885-1892, 2021.


RANSOHOFF, D. F.; FEINSTEIN, A. R. Problems of spectrum and bias in evaluating the efficacy of diagnostic tests. New England Journal of Medicine, v. 299, n. 17, p. 926-930, 1978.


SCHULZ, K. F.; ALTMAN, D. G.; MOHER, D. CONSORT 2010 Statement: updated guidelines for reporting parallel group randomised trials. BMJ, v. 340, c332, 2010.


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